Head of é título importado do modelo de produto e tecnologia americano, pensado originalmente pra quem lidera uma squad multidisciplinar com autonomia de decisão sobre roadmap, prioridade e alocação de recurso dentro daquele domínio específico. Um Head of Growth decide o que testar e onde investir dentro da sua fatia de orçamento; um Head of Product define prioridade de roadmap sem precisar de aprovação linha a linha de um diretor acima. É liderança horizontal, pensada pra empresa organizada em squads e tribos, não em departamento tradicional com organograma vertical rígido.
O problema é que esse modelo organizacional, squad, tribo, autonomia de time pequeno e multidisciplinar, é bem mais raro no Brasil do que o título "Head of" no crachá. Startup early-stage adora o termo porque soa como empresa de tecnologia de ponta, mesmo quando por trás do "Head of Marketing" existe uma pessoa sozinha, sem squad, sem orçamento próprio e sem autonomia real de decisão, reportando semanalmente pro fundador que aprova cada peça de anúncio antes de publicar. O título promete estrutura de scale-up e entrega estrutura de estagiário com nome bonito.
Vale desconfiar de "Head of" sem squad atrás tanto quanto se desconfia de "diretor" sem orçamento: o nome importado não cria a estrutura sozinho, só maquia a ausência dela. Quando o cargo é real, dá pra apontar o time, o escopo de decisão e a métrica pela qual essa pessoa é cobrada. Quando não é, sobra só um título em inglês que parece ter saído de um post de LinkedIn sobre cultura de startup do Vale do Silício, sem nenhum Vale do Silício por perto.



