Oneck Creative

Lei de Jakob: seu cliente aprendeu onde clicar nos sites dos outros

Logo no centro da página fez seis vezes mais gente se perder. A Lei de Jakob explica por que o seu site deve funcionar como os sites que o cliente já usa, e quais convenções o brasileiro espera encontrar.

14 min de leitura
Lei de Jakob: seu cliente aprendeu onde clicar nos sites dos outros

Seu cliente passa quase o dia inteiro em sites que não são o seu. É neles que ele aprende onde clicar e onde procurar cada coisa. Quando o seu site resolve inventar moda, quem paga a conta é a conversão.

SEGUE O PADRÃOINVENTOU MODAachou de primeira???4ª tentativa

Mesma tarefa, dois sites. No primeiro, a busca está onde o usuário espera: lupa no topo, à direita. No segundo, o menu virou um ícone, o logo foi para o centro e a busca virou um botão estrelado no meio da página. Ficou original e ficou mais lento.

O seu cliente entra no site para resolver um problema, e quer resolver do jeito que já sabe.

Seis vezes mais gente perdida por causa de um logo

Em 2016, a Nielsen Norman Group testou algo que parece detalhe de briefing: a posição do logotipo. Com o logo no canto superior esquerdo, 4% das pessoas não conseguiram voltar à página inicial com um clique. Com o logo centralizado, foram 24%.

Seis vezes mais falhas porque alguém achou que o centro ficava mais elegante.

LOGO À ESQUERDA4%LOGO CENTRALIZADO24%0%10%20%30%pessoas que não voltaram à home com um clique

Fonte: Nielsen Norman Group, estudo sobre logos centralizados (2016), citado por Jakob Nielsen no texto em que revisita a própria lei.

Ninguém ensinou ao usuário que o logo leva para a home. Ele aprendeu sozinho, repetindo o gesto em milhares de sites. Esse aprendizado coletivo tem autor e data de nascimento.

O que Jakob Nielsen disse em 2000

> "Os usuários passam a maior parte do tempo em outros sites. Isso significa que eles preferem que o seu site funcione da mesma forma que todos os outros sites que eles já conhecem." Jakob Nielsen, coluna Alertbox, 2000

Jakob Nielsen é dinamarquês, doutor em interação humano-computador e foi engenheiro da Sun Microsystems nos anos 90. Em 1998, fundou a Nielsen Norman Group ao lado de Don Norman, que popularizou o termo "experiência do usuário" quando trabalhava na Apple. Nielsen escrevia a Alertbox desde 1995, uma das colunas sobre usabilidade mais lidas da história da web, e foi nela que a lei apareceu.

Sim, ele batizou a lei com o próprio nome. Dá para discutir a modéstia. A ideia, não.

A Lei de Jakob nasceu da observação de mercado e se sustenta em mais de 25 anos de testes de usabilidade. Ela continua valendo porque a premissa ficou ainda mais verdadeira. Em 2000, o concorrente do seu site era outro site. Hoje é o Instagram, o app do banco, o Mercado Livre e o WhatsApp, onde o seu cliente passa horas por dia. O seu site disputa minutos com eles e herda os hábitos que eles criaram.

Por que o cérebro prefere o conhecido

A psicologia cognitiva chama isso de modelo mental: a ideia que cada pessoa faz de como uma coisa funciona. Don Norman levou o conceito para o design no livro The Design of Everyday Things, de 1988. Cada site visitado reforça um molde: logo à esquerda, busca à direita, carrinho no canto, botão de comprar perto do preço.

lojabanconotíciasSaaSgovernomodelo mentalo que o usuário espera do próximo site

Cada site visitado é uma aula. Quando o seu site bate com o molde, o cérebro reconhece e segue. Quando não bate, ele para, procura e gasta a atenção que deveria estar na compra.

Quando o site confirma a previsão, o esforço para usar a interface é quase zero e toda a atenção vai para a tarefa, seja escolher o produto ou pedir o orçamento. Quando o site contraria a previsão, a atenção sai da tarefa e vai para a interface. O nome técnico disso é aumento de carga cognitiva. O nome comercial é abandono.

O que isso faz com o faturamento

O usuário reconhece mais do que lê. Steve Krug resumiu a ideia no título do livro Don't Make Me Think, publicado no mesmo ano da Lei de Jakob. Quem precisa pensar para navegar já está pensando em ir embora.

O erro também vira culpa da marca. Ninguém sai de um site pensando "eu não soube usar"; sai pensando "esse site é ruim".

E o familiar passa segurança. Uma interface estranha no checkout acende o alerta de golpe. Os números do Baymard Institute mostram o tamanho disso:

70,22%é a taxa média de abandono de carrinho, numa média de 50 estudos
19%abandonam a compra por não confiar no site com o cartão de crédito
17%abandonam porque o checkout era longo ou complicado demais

As sete convenções que o visitante traz de casa

Cada uma delas pode ser quebrada, mas cada quebra cobra um pedágio de atenção.

Pedir orçamento1234567
  1. Logo no topo esquerdo, clicável, levando à página inicial.
  2. Menu horizontal visível no desktop, com rótulos comuns: Produtos, Sobre, Contato.
  3. Busca com lupa no topo, à direita. Se o site tem mais de 20 páginas ou produtos, a busca é obrigatória.
  4. Conta e carrinho no canto superior direito, com contador de itens.
  5. Ação principal acima da dobra, com verbo claro: Comprar, Pedir orçamento, Agendar.
  6. WhatsApp flutuante no canto inferior direito. No Brasil, isso já é padrão nacional.
  7. Rodapé completo, com contato, endereço, CNPJ, políticas e redes sociais.
Um site que segue essas sete convenções pode ter qualquer identidade visual. A marca aparece na cor, na tipografia, na fotografia e no texto. O lugar das coisas fica onde o usuário já procura.

Quem ignorou a lei e quem usou a seu favor

A Lei de Jakob fica mais fácil de entender quando custa caro para alguém.

1

Snapchat, 2018: quebrou o padrão. O app foi redesenhado e misturou conversas de amigos com conteúdo de mídia, mudando o lugar de tudo o que os usuários faziam de olhos fechados. Uma petição pedindo a volta do layout antigo passou de 1,2 milhão de assinaturas. Em 21 de fevereiro, Kylie Jenner tuitou que não abria mais o Snapchat. As ações chegaram a cair cerca de 8% no dia, e a imprensa estimou a perda em US$ 1,3 bilhão de valor de mercado. A convenção que o seu próprio usuário aprendeu também conta.

2

Windows 8, 2012: quebrou o padrão. O botão Iniciar existia desde o Windows 95, eram 17 anos de hábito. O Windows 8 o removeu em nome de uma interface de blocos pensada para telas de toque, e quem usava mouse e teclado achou o sistema confuso. Em maio de 2013, a Microsoft anunciou a volta do botão no Windows 8.1. Nem a dona do sistema operacional mais usado do mundo conseguiu ignorar o hábito.

3

Instagram Stories, 2016: usou o padrão. O Snapchat inventou os Stories em 2013. O Instagram copiou o formato quase inteiro em 2016, e Kevin Systrom, cofundador do app, admitiu publicamente que o crédito era do Snapchat. Em junho de 2017, menos de um ano depois, o Instagram Stories tinha 250 milhões de usuários diários, mais do que o Snapchat inteiro. Quando um formato vira convenção, quem tem a audiência ganha.

4

Threads, 2023: usou o padrão. A Meta lançou o Threads com uma interface que qualquer usuário do Twitter reconheceria num segundo e com login pela conta do Instagram. Foram 100 milhões de cadastros em cinco dias, o lançamento de app mais rápido registrado até então. O engajamento caiu bastante nas semanas seguintes: a familiaridade traz a pessoa, mas quem segura é o valor entregue.

5

Pix, desde 2020: o padrão virou norma. O Banco Central publicou requisitos mínimos de experiência para o Pix. Todo banco e fintech usa os mesmos nomes, como "Chave Pix", "Pix Copia e Cola" e "Pix Agendado", e a área Pix precisa ter destaque igual ao das outras formas de pagamento. O regulador aplicou a Lei de Jakob por decreto: quem aprende a fazer um Pix num banco sabe fazer em todos.

6

Puxar para atualizar, 2009: a inovação que virou padrão. O desenvolvedor Loren Brichter criou o gesto de puxar a tela para baixo para atualizar no Tweetie, um app de Twitter para iPhone. Hoje ele está em praticamente todo app com lista de conteúdo, e ninguém lembra que um dia foi novidade. Inovação vira convenção quando resolve um problema real e se explica sozinha.

20132015201720192021Snapchat Storiesout. 2013 · origemInstagram Storiesago. 2016WhatsApp Statusfev. 2017Facebook Storiesmar. 2017Twitter Fleetstestado no Brasil, 2020LinkedIn Stories20202021: os doisencerrados

Do invento ao padrão, e os que copiaram sem motivo. O formato pegou onde o público já consumia conteúdo passageiro de amigos. No Twitter e no LinkedIn, ele virou um recurso que ninguém pediu, e os dois foram encerrados em 2021. Seguir a convenção ajuda; copiar a convenção errada para o seu contexto atrapalha.

E o menu hambúrguer?

O ícone de três linhas virou convenção no celular, onde falta espaço. No desktop, ele esconde o que deveria estar à vista. A Nielsen Norman Group testou isso com 179 participantes e mediu o custo:

DESKTOP39% mais lentoCELULAR15% mais lento0%10%20%30%40%50%tempo extra para concluir tarefas com a navegação escondida

Além de mais lenta, a navegação escondida teve queda de cerca de 20% na descoberta de itens do menu. Regra prática: hambúrguer no celular, menu visível no desktop.

Quando vale a pena quebrar a regra

Seguir a Lei de Jakob deixa espaço para ser diferente, desde que se calcule o preço da diferença. O próprio Nielsen dá a conta: um design 10% melhor pode fracassar se causar 20% mais frustração e esforço de aprendizado. Quem usa sente primeiro o peso de reaprender, e a melhoria fica para depois.

10% melhor20% maisesforço

A conta de Nielsen: a melhoria tem que ser grande o bastante para pagar o custo de aprendizado. Na maioria dos sites comerciais, ela não é.

Inovar faz sentido quando:

  • Ainda não existe padrão. Interfaces de voz, assistentes de IA e realidade aumentada ainda estão definindo convenções. Observe o que os maiores estão adotando e siga rápido.
  • O ganho é enorme e foi testado. O puxar para atualizar pegou porque era claramente melhor do que procurar um botão de recarregar.
  • O padrão nasceu de uma limitação que já não existe. Nielsen recomenda abandonar convenções antigas com relutância, e só quando a tecnologia que as justificava ficou para trás.
Fora disso, a diferenciação mora em outro lugar: na oferta, no texto, na fotografia e no atendimento. Ninguém escolhe uma marca porque o carrinho dela fica no canto esquerdo.

Inovar ou seguir o padrão?

Pense num elemento específico do seu site, como o menu, a busca, o checkout ou um formulário, e responda:

  1. Existe um padrão consolidado para esse elemento na web?
  2. A sua alternativa resolve um problema real que o padrão não resolve?
  3. Você testou com usuários reais e o ganho foi claro?
  4. Esse elemento está no caminho do dinheiro (compra, cadastro, contato)?
Se existe padrão e a sua ideia não resolve nada que ele já não resolva, siga o padrão. A originalidade ali só cobra atenção do usuário. Coloque a criatividade na marca e deixe a mecânica onde o cliente espera. Se o elemento está no caminho do dinheiro, só mude depois de testar com gente de verdade.

As convenções que o cliente brasileiro já espera

A Lei de Jakob tem sotaque. O brasileiro aprendeu a comprar on-line com Mercado Livre, Magalu, Shopee e apps de banco, e trouxe de lá expectativas que um site estrangeiro nem imagina:

  • CEP que preenche o endereço. Pedir rua, bairro e cidade depois do CEP soa como descuido.
  • Frete calculado na página do produto, a partir do CEP, antes do carrinho. O Baymard aponta custos extras como o principal motivo de abandono (40%).
  • Parcelamento e preço no Pix ao lado do preço. "10x sem juros" e "5% off no Pix" são lidos junto com o valor.
  • Pix com QR Code e Pix Copia e Cola, com exatamente esses nomes, que o cliente conhece do banco.
  • WhatsApp como canal principal, no canto inferior direito. Formulário de contato sem WhatsApp parece site abandonado.
  • CNPJ e endereço no rodapé. Além de convenção, é obrigação para e-commerce pelo Decreto 7.962/2013.

Checklist da Lei de Jakob

Abra o seu site em outra aba e marque o que já está certo. O que sobrar é a sua lista de tarefas.

Navegação

  • Logo no topo esquerdo, clicável, levando à home
  • Menu visível no desktop, hambúrguer só no celular
  • Rótulos comuns no menu, sem nomes criativos
  • Busca com ícone de lupa no topo direito
  • Links com cara de link e botões com cara de botão
Conversão

  • Ação principal acima da dobra, com verbo direto
  • Carrinho e conta no canto superior direito
  • Preço com parcelamento e valor no Pix lado a lado
  • Frete calculável por CEP na página do produto
  • WhatsApp flutuante no canto inferior direito
Formulários e confiança

  • CEP preenche rua, bairro e cidade
  • Compra possível sem criar conta
  • Rolagem normal, sem efeito que trava o scroll
  • Rodapé com CNPJ, endereço e políticas
  • Termos do Pix iguais aos do banco

Os erros mais caros que vemos toda semana

Menu hambúrguer no desktop porque "fica mais limpo". Fica mais limpo e mais vazio de clientes. Botão com texto criativo, como "Bora!" no lugar de "Comprar", que obriga o usuário a interpretar o que o botão faz. Animações que travam a rolagem, que nos testes da Nielsen Norman Group geraram desorientação e irritação, piores no celular. Logo centralizado sem link para a home: seis vezes mais gente perdida, como você viu lá em cima. Formulário em ordem estranha, pedindo o CEP depois do endereço ou o CPF antes do nome.

Nenhum desses erros nasce de preguiça. Quase todos nascem da vontade de ser diferente.

Ponto-chave

A Lei de Jakob existe para lembrar que o seu site é um entre milhares na rotina do cliente, e que ele chega já sabendo onde as coisas ficam. A Oneck audita sites e landing pages com essa lente: onde o seu cliente tropeça porque o site decidiu ser original no lugar errado, e quanto isso custa em conversão. O próximo artigo da série é sobre a Lei de Fitts, que explica por que o tamanho e a posição do botão mudam a sua taxa de clique.

Fontes

Lei de Jakobleis de UXUXdesignjornada do usuárioabandono de carrinhootimização de conversãoe-commerce
Compartilhar:

Comentários

Carregando comentários...

Deixe seu comentário