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Lei de Hick: cada opção a mais é uma pergunta antes da compra

O assinante típico da Netflix perde o interesse depois de 60 a 90 segundos escolhendo. A Lei de Hick explica por que mais opções atrasam a decisão, o que o estudo da geleia ensina e como facilitar a escolha sem empobrecer o site.

10 min de leitura
Lei de Hick: cada opção a mais é uma pergunta antes da compra

Você abre o streaming à noite, passa por uma fileira de títulos, depois por outra, e um minuto depois ainda não escolheu nada. O cliente vive a mesma cena na sua página, e a Lei de Hick ajuda a explicar por quê.

10 OPÇÕES3 OPÇÕESdecidindoComeçar grátisVer planosFalar com vendasdecidiu

Mesma página, dois cardápios. Com dez itens de mesmo peso, o olho percorre um por um. Com três, sendo um claramente destacado, a decisão sai quase sem esforço.

Cada opção a mais na tela é mais uma pergunta que o cliente precisa responder antes de comprar. Algumas valem a pena. A maioria só atrasa a decisão.

A Netflix tem 90 segundos para te convencer

Em 2015, Carlos Gomez-Uribe e Neil Hunt, então executivos de produto da Netflix, publicaram um artigo acadêmico sobre o sistema de recomendação da empresa. No meio dos algoritmos, um dado de comportamento: o assinante típico perde o interesse depois de 60 a 90 segundos escolhendo, tendo olhado de 10 a 20 títulos. Depois disso, ele larga o app e vai fazer outra coisa.

A empresa com o maior catálogo de entretenimento do mundo descobriu que o catálogo, sozinho, espanta. O que segura o cliente é ajudar a escolher.

desistiu e fechou o app10 a 20 títulos olhados · 60 a 90 segundos

Fonte: Gomez-Uribe e Hunt, "The Netflix Recommender System: Algorithms, Business Value, and Innovation", ACM Transactions on Management Information Systems (2015).

Dez lâmpadas, dez dedos e um cronômetro

William Edmund Hick era psicólogo britânico e trabalhava na Unidade de Psicologia Aplicada do Conselho de Pesquisa Médica, em Cambridge. Ele montou um experimento simples: dez lâmpadas dispostas em círculo, cada uma ligada a uma tecla sob um dedo diferente. Uma lâmpada acendia ao acaso, e a pessoa tinha de apertar a tecla certa o mais rápido possível. Hick variou o número de lâmpadas em jogo e mediu o tempo de reação.

O resultado saiu em 1952, no Quarterly Journal of Experimental Psychology. No ano seguinte, o americano Ray Hyman refinou a descoberta e mostrou que o tempo depende da quantidade de informação, ou seja, também da probabilidade de cada opção, e não só do número delas. Por isso o nome técnico é Lei de Hick-Hyman.

T = a + b · log₂(n + 1)

T é o tempo de decisão, n é o número de opções igualmente prováveis, e a e b são constantes da pessoa e da tarefa. O "+1" representa a dúvida sobre responder ou não.

O logaritmo é a parte mais mal interpretada da lei. Ele diz que o tempo cresce cada vez mais devagar: ir de 2 para 4 opções custa mais ou menos o mesmo que ir de 4 para 8. Isso vale para a situação do laboratório, com opções conhecidas e igualmente prováveis. Numa página real, o cliente precisa ler, comparar e entender cada opção. Aí o custo cresce bem mais rápido, quase em linha reta.

1357910número de opçõestempoHick: opções conhecidaslendo opções novas, sem ordem

Curvas ilustrativas. A azul segue a fórmula de Hick. A cinza mostra o caso de busca em lista sem ordem, em que o tempo cresce de forma linear, como descrevem os próprios estudos sobre os limites da lei. Os pontos marcam 5 opções na tela.

2,6×com 5 opções, tempo de decisão pela Lei de Hick, comparado a uma opção
5,0×com 5 opções, tempo para ler e comparar opções novas, uma a uma
Opções na telaTempo de decisão pela Lei de HickTempo para ler e comparar uma a uma
11,0×1,0×
21,6×2,0×
42,3×4,0×
52,6×5,0×
83,2×8,0×
103,5×10,0×

A geleia que todo palestrante cita

Em estudo publicado em 2000, os pesquisadores Sheena Iyengar e Mark Lepper montaram uma banca de degustação de geleias num supermercado gourmet da Califórnia. Em alguns horários a banca tinha 24 sabores. Em outros, 6. A banca grande atraiu mais gente. A pequena vendeu muito mais.

Pararam na banca24 sabores60%6 sabores40%Compraram, entre os que pararam24 sabores3%6 sabores30%

Fonte: Iyengar e Lepper, "When Choice is Demotivating", Journal of Personality and Social Psychology (2000). Escala de 0 a 60%.

O estudo virou o livro O Paradoxo da Escolha, de Barry Schwartz, e uma quantidade incontável de palestras. Agora, a parte que as palestras pulam.

Em 2010, Benjamin Scheibehenne e colegas juntaram 50 experimentos sobre excesso de escolha numa meta-análise. O efeito médio foi praticamente zero. Em alguns estudos, mais opções atrapalhavam. Em outros, ajudavam. Em 2015, outra meta-análise, de Alexander Chernev e colegas, encontrou o padrão: o excesso de opções pesa quando a escolha é complexa, quando as opções são difíceis de comparar, quando a pessoa não sabe bem o que quer e quando ela quer resolver logo.

Ou seja, a geleia não é lei universal. Mas descreve com precisão o visitante típico de um site comercial: com pressa, sem saber direito a diferença entre os planos, comparando coisas que parecem iguais.

Quem cortou opções e quem organizou melhor

1

Apple, 1997, volta de Steve Jobs: cortou opções. Quando Jobs voltou à Apple, a empresa vendia dezenas de modelos com nomes que nem os vendedores sabiam diferenciar. Ele cortou mais de 70% dos produtos de hardware e software e desenhou uma grade de quatro quadrados: consumidor ou profissional, mesa ou portátil. Um produto em cada quadrado. O que não cabia, saía.

Lição: se nem a sua equipe consegue explicar a diferença entre duas opções, o cliente também não vai conseguir.

antes: dezenas de modelosiMaciBookPower MacPowerBookmesaportátilem cima: consumidor · embaixo: profissional

A grade de Jobs. Duas perguntas, quatro respostas. O cliente não precisava comparar especificações: bastava saber se era para casa ou para trabalho, e se ficaria na mesa ou iria na mochila.

2

Netflix, botão "Play Something", abril de 2021 a 2023: cortou demais. Sabendo dos 90 segundos, a Netflix lançou um botão que escolhia algo para assistir sozinho, sem pergunta nenhuma. Em 2023, removeu o recurso. Segundo a empresa, pouca gente usava, porque a maioria abre o app já com um título ou um gênero em mente.

Lição: reduzir opções ajuda. Eliminar a escolha de quem quer escolher não ajuda. O objetivo é facilitar a decisão, não tomá-la no lugar do cliente.

3

The Economist e a opção que ninguém comprou: organizou as opções. Caso relatado por Dan Ariely em Predictably Irrational (2008). A revista oferecia três assinaturas: só on-line por US$ 59, só impressa por US$ 125 e impressa mais on-line também por US$ 125. Ninguém escolhia a opção só impressa. Mas, quando Ariely testou a oferta com e sem ela, a escolha mudou completamente.

AssinaturaCom as 3 opçõesSem a opção impressa
Só on-line, US$ 5916%68%
Só impressa, US$ 1250%fora
Impressa + on-line, US$ 12584%32%

Lição: o número de opções importa, mas a arrumação também. Uma terceira opção bem posicionada não atrasa a decisão. Ela serve de régua e mostra qual é o bom negócio.

Seis formas de aplicar a Lei de Hick sem empobrecer o site

Cortar opções é a solução mais óbvia e nem sempre a melhor. Um e-commerce não vai vender três produtos. A maior parte do trabalho é reduzir o número de opções por decisão, e não o total.

  • Destaque uma opção. Um selo de "mais escolhido" ou um plano visualmente maior transforma três opções em uma recomendação e duas alternativas.
  • Divida em etapas. Um checkout com 20 campos numa tela só assusta. O mesmo checkout em três passos curtos parece rápido, mesmo com os mesmos campos.
  • Agrupe e nomeie. Quarenta produtos soltos são quarenta decisões. Cinco categorias com oito produtos cada são duas decisões pequenas.
  • Esconda o avançado. Filtros técnicos, opções de personalização e configurações raras ficam atrás de um "mais opções". Isso tem nome: divulgação progressiva.
  • Escolha um padrão. Tamanho mais vendido já selecionado, frete mais usado marcado, plano anual sugerido. O cliente pode mudar, mas não precisa decidir do zero.
  • Ofereça busca para listas longas. Quando o cliente já sabe o que quer, a Lei de Hick deixa de ser o problema. A busca resolve o que nenhum menu resolve.

Onde o brasileiro já espera menos escolha

  • Cardápio de delivery com "Mais pedidos" no topo. Antes de mostrar 80 itens, o app mostra os oito que resolvem a fome de quase todo mundo.
  • Três formas de pagamento visíveis: Pix, cartão e boleto. Carteiras digitais e outras opções podem existir, mas não precisam disputar o mesmo espaço.
  • Planos de internet e celular em três colunas, com o do meio destacado. As operadoras repetem esse formato porque ele funciona.
  • Landing page de campanha com um único botão de ação. Se o anúncio prometeu orçamento, a página não precisa oferecer blog, loja e "trabalhe conosco".
  • WhatsApp com menu de três ou quatro opções numeradas no atendimento automático, e não uma árvore com 12 ramificações.

Checklist da Lei de Hick

Abra a página mais importante do seu site e conte as decisões que o cliente precisa tomar antes de chegar ao botão de compra.

Navegação

  • Menu principal com até sete itens
  • Categorias com nomes que o cliente entende
  • Busca disponível em catálogos com mais de 20 itens
  • Filtros avançados escondidos atrás de "mais filtros"
  • "Mais vendidos" ou "mais pedidos" em destaque

Oferta

  • No máximo três ou quatro planos lado a lado
  • Um plano ou produto recomendado em destaque
  • Diferença entre opções explicada em uma linha
  • Landing page de campanha com uma única ação
  • Variações pré-selecionadas com a opção mais comum

Formulários e checkout

  • Checkout dividido em etapas curtas
  • Só os campos indispensáveis
  • Formas de pagamento principais visíveis, as demais agrupadas
  • Opção de frete mais usada já marcada
  • Nenhum pop-up oferecendo outra coisa no meio do checkout

Os erros mais caros, em ordem de frequência

  • A home que tenta falar com todo mundo, com seis banners rotativos, quatro chamadas e dois pop-ups. O visitante não sabe por onde começar e começa pelo botão de voltar.
  • Cinco planos com diferenças mínimas, criados porque cada cliente antigo pediu uma variação. A tabela vira uma prova de interpretação de texto.
  • Menu com 15 itens no topo porque cada setor da empresa quis aparecer.
  • Landing page de anúncio com o menu completo do site, oferecendo dezenas de saídas para quem chegou com uma intenção só.
  • Formulário com campos opcionais misturados aos obrigatórios, obrigando o cliente a decidir, campo por campo, se precisa preencher.
Ponto-chave

A Lei de Hick não pede um site pobre. Pede um site que pense antes do cliente. Cada opção na tela é uma decisão que você transferiu para ele. Algumas ele quer tomar. Todas as outras são trabalho que a sua página deveria ter feito.

Quantas decisões o seu cliente toma antes de comprar? A Oneck mapeia o caminho do seu cliente até a conversão e mostra onde o excesso de opções está atrasando a venda, da home ao checkout.

Fontes

Perguntas frequentes

O que é a Lei de Hick?

É a relação publicada por William Edmund Hick em 1952 e refinada por Ray Hyman em 1953: o tempo de decisão cresce com o logaritmo do número de opções igualmente prováveis, T = a + b · log₂(n + 1). Por isso o nome técnico é Lei de Hick-Hyman.

Menos opções sempre vendem mais?

Nem sempre. Uma meta-análise de 2010, com 50 experimentos, encontrou efeito médio praticamente zero. Outra, de 2015, mostrou que o excesso de opções pesa quando a escolha é complexa, quando as opções são difíceis de comparar, quando a pessoa não sabe bem o que quer e quando ela quer resolver logo.

Quantos planos mostrar lado a lado?

No máximo três ou quatro, com um plano recomendado em destaque e a diferença entre as opções explicada em uma linha.

Como aplicar a Lei de Hick em um e-commerce com muitos produtos?

Reduza o número de opções por decisão, e não o total: agrupe em categorias com nomes que o cliente entende, destaque os mais vendidos, deixe filtros avançados atrás de "mais filtros" e ofereça busca para listas longas.

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